Todos os profissionais de saúde deviam ter formação teórica e prática em Geriatria

Sofia Duque, assistente hospitalar de Medicina Interna do Hospital Beatriz Ângelo, recebeu, este ano, o Prémio Nunes Correa Verdades de Faria, na área do “progresso da Medicina na sua aplicação às pessoas idosas”, uma distinção da Misericórdia de Lisboa. Este prémio contempla ainda duas outras áreas: “O cuidado e carinho dispensado aos idosos desprotegidos” e “O progresso no tratamento das doenças do coração”.

Em entrevista à Just News, a secretária da coordenação do Núcleo de Estudos de Geriatria da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (GERMI) começa por referir que foi “uma grande honra receber este prémio, que representa o reconhecimento do meu compromisso com a Geriatria, o qual teve início em 2007, ao começar a formação específica em Medicina Interna”.Esclarece que a principal razão para se dedicar à Geriatria “foi a satisfação e gratificação que sinto na abordagem do doente idoso, habitualmente mais disponível, mais predisposto a receber ajuda e agradecido”.

Apresenta ainda outros motivos para se dedicar, desde há 8 anos, à Geriatria nas vertentes clínica, académica e científica:

“A necessidade que sempre tive em abordar o doente como um todo, atendendo não só à dimensão orgânica, mas também a aspetos sociais e psicológicos que muito podem influir no bem-estar e qualidade de vida da pessoa idosa. O reconhecimento de que a medicina tradicional ainda não aborda o doente idoso de uma forma integral e completa, focando-se essencialmente na patologia orgânica. A compreensão do envelhecimento populacional em Portugal, resultando no aumento exponencial do número de pessoas idosas, e, por fim, o subdesenvolvimento da Geriatria em Portugal, havendo inesgotáveis oportunidades para inovação científica e clínica.”

Geriatria com percurso “muito sinuoso”

Sofia Duque, que integra a equipa multidisciplinar da Unidade Universitária de Geriatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa,  não hesita em afirmar que alguns “obstáculos e preconceitos da comunidade médica e institucionais, tornam o percurso da Geriatria muito sinuoso, contrariando o seu desenvolvimento apesar da inequívoca necessidade de otimizar a abordagem médica da pessoa idosa”. Afirma que esta resistência “foi também sentida nos outros países da Europa, mas em Portugal estamos atrasados várias décadas… “.

Perante este cenário, encara o Prémio da SCML como um “símbolo de estímulo e motivação para o futuro” e, mais do que um reconhecimento, “representa a responsabilidade de continuar a lutar pela expansão da Geriatria na nossa sociedade e no nosso sistema de saúde, e na formação dos futuros profissionais de saúde, com o objetivo de proporcionar a maior qualidade de vida e dignidade à pessoa idosa”.

Estruturas de apoio social “insuficientes”

Relativamente à qualidade de vida da pessoa idosa, Sofia Duque salienta que tal “depende em grande parte da saúde, mas não só. A pessoa idosa habitualmente enfrenta dificuldades de natureza social, psicológica, económica. Estes problemas são comuns na maior parte dos países ocidentais, independentemente do seu nível económico.”

No caso de Portugal, as estruturas de apoio social existentes “para dar resposta eficaz a estes problemas são ainda insuficientes e não generalizadas a toda a população”.

Desta forma, acrescenta, “um dos principais desafios na luta pela qualidade de vida dos idosos será a criação e globalização de estruturas económico-sociais de apoio a idosos, seja para idosos que requerem institucionalização, quer para idosos que, com o apoio adequado, podem continuar a viver na comunidade”.

Além da criação destas estruturas, Sofia Duque indica que “é também fundamental qualificá-las e promover a educação em Geriatria a todos os profissionais envolvidos, quer no âmbito da saúde quer no âmbito social.”

No futuro, “será desejável que, por exemplo, todas residências de idosos, centros de dia e serviços de apoio domiciliário, integrem médicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, gerontólogos, etc com treino específico em Geriatria e Gerontologia, expresso na prática diária e regulamentado pelas entidades responsáveis”.

“Todos os profissionais de saúde deviam ter formação em Geriatria”

No âmbito da Saúde, “os principais desafios na luta pela qualidade de vida começam na educação pré-graduada dos profissionais de saúde.” Sofia Duque é de opinião que “todos os profissionais de saúde deviam ter formação teórica e prática em Geriatria” e explica: “A nível da formação médica pré-graduada algumas faculdades já têm a disciplina de Geriatria como obrigatória, mas o ensino prático é ainda inexistente apesar da grande maioria dos futuros médicos ir assistir grande número de idosos durante a sua vida profissional.”

Para esta realidade, acrescenta, “contribui a inexistência no Serviço Nacional de Saúde de Unidades de Geriatria. Ao contrário do que acontece na maior parte dos países da Europa, atualmente não existe uma única Unidade de Internamento de Geriatria em Portugal, as quais se destinariam não só ao tratamento de doentes idosos mais frágeis com a presença de múltiplas síndromes geriátricas, mas também ao ensino dos vários profissionais de saúde que lidam diariamente com a pessoa idosa, e que assim poderiam profissionalizar e disseminar os princípios orientadores da assistência geriátrica nas instituições onde trabalham.”

Comunicação, colaboração e complementaridade

Sofia Duque destaca que são também “ainda raras as Consultas de Geriatria nos hospitais portugueses, por vezes até havendo profissionais com competência para as organizarem e dirigirem”. Assim, considera que “um dos maiores desafios nos anos vindouros será que o SNS reconheça e impulsione a criação de Unidades de Internamento de Geriatria nos hospitais portugueses, finalmente nivelando-se com os outros países europeus”.

No âmbito dos Cuidados de Saúde Primários “será também um desafio das próximas décadas estabelecer e implementar na prática clínica um programa de assistência à pessoa idosa, alicerçado no envelhecimento saudável e ativo, na prevenção e que promova a preservação da autonomia e independência e a reabilitação, física, funcional e cognitiva, quando necessária.”

Para que todas estas estratégias sejam eficazes, a assistente hospitalar de Medicina Interna não tem dúvidas de que “será fundamental a eficaz articulação entre as várias instituições, de apoio social, dos cuidados de saúde primários e hospitalares, integrando um único sistema que promova a comunicação, colaboração e complementaridade. Só assim será possível otimizar a qualidade de vida da pessoa idosa.”

FONTE

http://www.justnews.pt/noticias/todos-os-profissionais-de-saude-deviam-ter-formacao-teorica-e-pratica-em-geriatria/#.VfvZNGCQn9t