Dentro de duas décadas, um quarto dos trabalhadores portugueses serão “velhos”

Dentro de duas décadas, um quarto da força de trabalho em Portugal terá entre 55 e 64 anos. De acordo com o relatório anual sobre a zona euro, divulgado nesta sexta-feira pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), Portugal está entre os países europeus (de um grupo de 20 analisados) onde o peso dos trabalhadores “velhos” no total da população activa mais vai crescer até 2035. Só Espanha, Grécia e Itália registam aumentos mais pronunciados.

O FMI nota que, nas últimas décadas, a zona euro tem-se confrontado com um crescente envelhecimento populacional, processo que tenderá a acelerar no futuro, com consequências negativas na economia. Os técnicos do Fundo antecipam que o fenómeno demográfico poderá travar de “forma significativa” o crescimento da produtividade nos próximos 20 anos.

De acordo com os cálculos do FMI, se o peso dos trabalhadores mais velhos no total da força de trabalho aumentar um ponto percentual, haverá uma quebra da produtividade de 0,2 pontos percentuais.

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Em 2035 Porrgual será dos países a ter uma população activa mais envelhecida ADELAIDE CARNEIRO 

Por um lado, explica a instituição, os trabalhadores mais velhos acumulam experiência o que acaba por ter efeitos positivos na produtividade. Mas, por outro, “à medida que a idade média dos intervenientes do mercado de trabalho aumenta, o stock de competências ficará cada vez mais datado, com efeitos negativos na inovação e na produtividade”.

“O maior impacto negativo deverá ocorrer nos países – como Espanha, Itália, Portugal, Grécia e Irlanda – onde se espera um rápido envelhecimento da força de trabalho e que enfrentam elevados níveis de endividamento”, refere o relatório.

Olhando para o caso de Portugal, a evolução trará mudanças significativas. Em 2014, 14,9% da força de trabalho tinha entre 55 e 64 anos, colocando o país a meio da tabela entre os 20 países analisados, com resultados melhores do que a Alemanha, a Finlândia ou a Suécia.

O futuro traz, contudo, más notícias e, em 2035, esta percentagem chegará aos 24,1%. Portugal subirá para o quarto lugar da tabela e será um dos países onde o peso dos trabalhadores “velhos” no total da força de trabalho será mais elevado.

No quadro europeu, há situações mais graves como a de Espanha, onde o peso passará de 13,1% para 27,5%, da Grécia, onde se registará um aumento de 11,5% para 25,4%, e de Itália, que em duas décadas passará de uma percentagem de 14,8% para 25,8%. A diferença é que, em 2014, estes países estavam numa situação melhor do que Portugal.

Além dos efeitos na produtividade, o FMI alerta ainda que o envelhecimento da força de trabalho poderá ter consequências negativas nas taxas de poupança, no aumento da pobreza entre os idosos e numa maior pressão das finanças públicas, sobretudo em países – como é o caso de Portugal – onde a folga orçamental praticamente não existe.

Crescimento de 1,4% por causa do “Brexit”

Também nesta sexta-feira, a instituição liderada por Christine Lagarde chamou a atenção para uma desaceleração do crescimento das economias da zona euro, por causa dos efeitos colaterais da saída do Reino Unido da União Europeia.

O FMI prevê que “o Produto Interno Bruto (PIB) dos países do euro deverá desacelerar de 1,6% este ano para 1,4% em 2017, sobretudo devido ao impacto negativo do resultado do referendo no Reino Unido”. Em Abril, o FMI antecipava uma evolução de 1,5% em 2016 e de 1,6% em 2017.

No relatório, o fundo aponta ainda que as perspectivas a médio prazo para a zona euro são “medíocres” – dado o elevado desemprego herdado da crise, a significativa dívida pública e privada e as debilidades estruturais que afectam o crescimento da produtividade – projectando um crescimento a cinco anos em torno de 1,5%, com a taxa de inflação a ficar-se pelos 1,7%.

De acordo com a avaliação agora feita, a revisão em baixa das estimativas estão relacionadas com o abrandamento da economia global  e com questões políticas” internas”. “Os impactos adicionais do referendo no Reino Unido, o problema dos refugiados ou um aumento das preocupações com a segurança podem contribuir para um aumento da incerteza, afectando o crescimento e prejudicando os progressos nas políticas e nas reformas”, adverte o FMI

Ma há outros riscos, nomeadamente a debilidade dos sistemas bancário e financeiro de alguns países, um crescimento fraco muito prolongado e a inflação, que tornam a zona euro “cada vez mais vulnerável a choques em áreas onde as políticas disponíveis para limitar os efeitos sobre a economia são muito limitadas”.

No relatório divulgado nesta sexta-feira, o fundo pede ainda à Comissão Europeia que reforce os procedimentos contra os países que violem as regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento, a poucos dias de o Ecofin tomar uma decisão sobre a aplicação de sanções a Portugal e Espanha. Uma possibilidade que voltou a ser criticada nesta sexta-feira pelo secretário-geral da OCDE.